Pessoas com dermatite atópica têm maior risco de depressão e ansiedade

Uma em cada cinco pessoas com dermatite atópica tem depressão, proporção duas vezes maior que a observada na população geral. O risco de ansiedade também é mais alto, segundo revisão de estudos publicada em 2024 no Journal of Clinical Medicine.

A dermatite atópica é uma doença inflamatória crônica, não contagiosa e de origem genética, que pode causar ressecamento, sensibilidade, lesões avermelhadas e coceira intensa. Um levantamento citado em protocolo do Ministério da Saúde apontou prevalência de 2,3% no Brasil.

Em reportagem publicada em 25 de outubro de 2026, são relatadas as experiências de Pietro Medeiros, 8, de Cachoeirinha (RS), e Rebecca Castelo Branco, 27, de Uberlândia (MG). O menino recebeu diagnóstico de um quadro grave no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, enquanto a maquiadora relata efeitos da doença na vida social e na percepção da própria aparência.

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Especialistas ouvidas associam sintomas como coceira e lesões visíveis a prejuízos no sono, nos estudos, no trabalho e nas relações sociais. A reportagem também aborda o sofrimento de familiares, o preconceito ligado à desinformação e as incertezas sobre como a inflamação pode se relacionar com a saúde mental.

O que estudos apontam sobre dermatite atópica e saúde mental

Uma pesquisa do Datafolha, realizada em 2020 a pedido da farmacêutica AbbVie, ouviu 1.001 pessoas sobre dermatite atópica. Entre os entrevistados, 30% acreditavam que a doença era contagiosa, embora ela não seja transmitida de uma pessoa para outra.

O levantamento também registrou que 47% associavam a condição à falta de higiene. Para 36%, pessoas com lesões visíveis não deveriam sair de casa, estudar ou trabalhar, respostas que mostram como a desinformação pode alimentar o afastamento social.

Uma revisão de estudos publicada em 2024 identificou depressão em 29,3% dos pais de crianças com dermatite atópica. No grupo de comparação, o índice foi de 20,3%, indicando que o sofrimento relacionado à doença pode alcançar também familiares e cuidadores.

Sintomas, estigma e efeitos da doença sobre pacientes e familiares

A mãe de Pietro Medeiros, Dioneli, descreveu dificuldades enfrentadas pelo filho durante o quadro grave acompanhado no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA). Segundo ela, o menino não saía da cama nem caminhava e sentia dor e coceira ao acordar e dormir, além de ter dificuldade para tomar banho e vestir roupas.



Na escola, um colega disse que havia contraído a condição de Pietro, repetindo uma afirmação que ouvira do pai; uma professora também perguntou se a dermatite era contagiosa. Depois desses episódios, o menino passou a não querer ir às aulas, segundo Dioneli.

A dermatologista Rosana Lazzarini, primeira-secretária da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), afirma que a coceira pode comprometer o sono e afetar o rendimento nos estudos e no trabalho. Quando as lesões ficam visíveis, acrescenta, o desconforto pode interferir também na convivência social.

O tratamento do filho teve repercussões para Dioneli, que relatou ter desenvolvido depressão e ansiedade e chegou a pensar que era uma péssima mãe. Ela conta que pessoas próximas atribuíam a piora da pele de Pietro ao estresse dela, enquanto vizinhos chamavam de “manha” a resistência do menino aos banhos e aos cremes e chegaram a sugerir que ela batesse nele.

A experiência na vida adulta, o cuidado psicológico e as dúvidas sobre a relação entre inflamação e saúde mental

Em Uberlândia (MG), Rebecca Castelo Branco, de 27 anos, trabalha como maquiadora há nove anos, mas estava havia meses sem se maquiar. Ela relata que os cosméticos evidenciam as lesões no rosto e dificultam a hidratação da pele.

Durante um evento de beleza, Rebecca se afastou de outros profissionais para chorar e contou que, ao se olhar no espelho, via a doença. Com depressão e ansiedade, passou a restringir o convívio a pessoas conhecidas e a evitar relacionamentos amorosos até se sentir melhor com a própria aparência.

Rebecca faz terapia com uma psicóloga particular, mas diminuiu a frequência das sessões para pagar o tratamento dermatológico e aguardava uma consulta psiquiátrica pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A psicóloga Tarcila Cicchini, que trabalhou por mais de 30 anos com pacientes dermatológicos no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), afirma que a psicoterapia pode ajudar a lidar com vergonha, preconceito e dificuldades nas relações; ela também participa de grupos gratuitos da Associação de Apoio à Dermatite Atópica, onde pacientes e familiares compartilham experiências e recebem orientação de profissionais de saúde.

Lazzarini explica que o estresse pode aumentar a coceira e agravar as lesões, mas não causa, sozinho, a dermatite atópica. Rebecca diz que médicos já relacionaram sua condição a fatores emocionais, embora tenha notado lesões mesmo quando estava feliz; segundo Lazzarini, o desânimo e problemas de saúde mental podem comprometer a continuidade do tratamento, e pesquisadores ainda investigam se a inflamação contribui para transtornos mentais, sem que a relação esteja esclarecida.



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