O despertar para o futebol
Karina Balestra da Luz, que nasceu no dia 21 de janeiro de 1982 na capital do Rio Grande do Sul, iniciou sua jornada no futebol em um cenário familiar. Desde pequena, Karina era influenciada pelo irmão mais velho, que carregava sempre uma bola. “Meu irmão estava sempre jogando; onde ele ia, eu o seguia”, recorda. O futebol, que começou como uma simples brincadeira na infância, rapidamente se tornou sua maior paixão. “Logo depois da escola, eu já saía para jogar futebol na rua”, afirma, destacando como o esporte fez parte de sua vivência desde muito cedo.
Mudanças e desafios na adolescência
Quando chegou à adolescência, Karina enfrentou uma difícil transição: a migração do futsal para o futebol de campo. Diante da impossibilidade de encontrar um time de futebol feminino em sua cidade, ela não hesitou em aceitar o convite para jogar entre meninos. Porém, isso trouxe novos desafios. “Na hora do campeonato, eu não podia ser inscrita. Isso foi muito frustrante, porque queria jogar e não apenas treinar”, lamenta. Essa experiência foi um ponto de virada, despertando nela a ambição de se tornar uma atleta profissional e de competir exclusivamente com mulheres. Aos 14 anos, em busca de uma escolinha em Porto Alegre, ela finalmente ingressou no Internacional, onde sentiu a verdadeira euforia do futebol feminino, mesmo com os desafios logísticos de ter que pegar dois ônibus para treinar.
A ascensão ao profissionalismo
Karina subiu rapidamente ao time profissional do Internacional em menos de um ano. Com apenas 15 anos, ela estreou no Campeonato Brasileiro adulto, tendo como adversária Sissi, a icônica primeira camisa 10 do futebol feminino no Brasil, que jogava pelo São Paulo. “Era uma grande honra. Como fã da Sissi, pensei: ‘uau, estou jogando o mesmo esporte que ela’”, conta com entusiasmo.

Durante seus seis anos no Inter, de 1997 a 2003, ela chamou a atenção dos responsáveis pela Seleção Brasileira. “Duda, que era gestora de futebol, me disse que eu estava sendo monitorada”, relembra. Jogar ao lado de ícones como Marta e Cristiane e vestir a camisa da seleção nacional foi um motivo de orgulho para Karina, que destacou a responsabilidade de representar seu país. Desde a primeira convocação em 2001, ela contribuiu para a Seleção por mais cinco anos, tendo seu melhor momento na conquista do Campeonato Pan-Americano em 2003. “Esse Pan foi marcante, pois entramos para a história”, comenta.
Experiências internacionais no futebol
Em mais de duas décadas de carreira, Karina teve passagens significativas por clubes como Juventude, Corinthians e Suwon FC, na Coreia do Sul, além de experiências em Ferroviária e Grêmio. Sua passagem pela Coreia foi especialmente transformadora, onde pela primeira vez ela conseguiu se sustentar unicamente com o futebol e ainda recuperar seu nível físico e técnico. “Na Coreia, tive um choque de realidade. O futebol feminino lá é sério: os jogos são televisionados e a estrutura é comparável à dos homens. Isso me fez sentir valorizada”, observa.
A passagem pelo Grêmio e o impacto no futebol feminino
Em 2017, Karina começou um novo capítulo em sua carreira ao retornar ao Grêmio, onde ajudou a reabrir o futebol feminino. Com 57 gols marcados, ela se tornou a artilheira, contribuindo para que o clube retornasse à Série A1 em 2019. “Foi gratificante. Eu fui quem bateu na porta do presidente para a reabertura do projeto de futebol feminino”, brinca. Com esse novo status, a ex-jogadora se tornou um verdadeiro ícone do clube.
Despedida inesperada dos gramados
Porém, essa história tomou um rumo inesperado. Durante a fase classificatória do Campeonato Brasileiro Feminino em 2020, após um confronto com o Tricolor Paulista, a equipe recebeu a notícia de que 10 pessoas testaram positivo para Covid-19, incluindo Karina. “Apenas uma semana depois teríamos um jogo histórico na Arena do Grêmio”, relembra. O seu contrato terminaria no final de outubro, limitando sua chance de jogar em sua despedida.
Embora no dia em que os resultados dos testes saíram, Karina estivesse negativada, ela ainda não estava em plena condição física para atuar. “Treinei poucos dias e ainda sentia falta de ar”, ela diz. Apesar de tudo, sua determinação para estar presente no jogo da Arena era inabalável. Com o suporte da treinadora Patrícia Gusmão, Karina entrou em campo no fim da partida, aos 45 minutos do segundo tempo. “Foi uma despedida difícil. Queria um encerramento mais digno nos gramados”, admite.
Uma nova fase: a gestão esportiva
Aos 38 anos, a aposentadoria significou uma reconfiguração de identidade para Karina. Ela levou um ano até aceitar que não era mais atleta. “Demorei a entender que não poderia mais ajudar dentro de campo”, relembra. Assim, ela se voltou para o lado da gestão esportiva, buscando entender os bastidores do futebol. Em 2021, Karina se juntou ao Sindicato dos Atletas Profissionais do Rio Grande do Sul (SIAPERGS), onde se tornou diretora do Departamento de Futebol Feminino. Além disso, lançou o projeto “Atletas Livres Feminino”, voltado para apoiar meninas que sonham em praticar futebol. “É gratificante ver essas garotas jogando e realizando o que amam”, destaca.
O legado das ‘quatro linhas’
Karina eventualmente retornou ao Grêmio, ao ser convidada por Marianita Nascimento para ser diretora adjunta do futebol feminino. No entanto, em dezembro de 2025, ela foi informada inesperadamente sobre seu desligamento do clube. “Elas retiraram duas importantes mulheres, ambas ex-atletas que compreendiam bem a modalidade. Conversamos sobre como o Grêmio interferiu em algo que estava funcionando”, revela.
Projetos para o futuro do futebol feminino
Atualmente, em 2026, Karina continua seu trabalho em prol do futebol feminino e está determinada a ajudar a modalidade a crescer, especialmente com a Copa do Mundo Feminina de 2027 se aproximando. “Esperamos novas atitudes sérias em relação ao futebol feminino. Que meninas possam viver somente do esporte, não apenas por um tempo limitado”, frisa. Para Karina, que dedicou toda sua vida ao esporte, a evolução do futebol feminino no Brasil é uma demanda urgente.
Reflexões sobre o futebol e suas transformações
As experiências de Karina Balestra refletem não só sua trajetória pessoal no futebol, mas também as grandes mudanças e desafios enfrentados pelas mulheres no esporte. Sua luta pela valorização e reconhecimento do futebol feminino é uma meta que precisa ser continuamente perseguida, e seu legado certamente continuará a inspirar futuras gerações de mulheres no esporte.


